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As crises te fazem mais fortes

O terremoto no México vivido em primeira pessoa por um especialista em comunicação

Como todos vocês sabem, os abalos sísmicos de setembro de 2017 no México foram devastadores. Todos os profissionais de Relações Públicas e Comunicação no México viveram em sua própria pele uma crise muito forte, que nos obrigou a resgatar toda nossa experiência em gestão de crise e aplica-la da melhor maneira possível. Primeiro, em nossos círculos próximos, empregados, clientes e stakeholders. E, de aí, crescendo a comunidades públicas, ajudando com o poder da comunicação, aos chamados de ajuda.

Em PROPR, particularmente, vivemos muito de perto as consequências do tremor de19 de setembro com Lucía Zamora, que esteve colaborando conosco dando oficinas e seminários de Storytelling.

Todos nós revalorizamos o poder que temos como comunicadores, pudemos ver isso refletido em muitas das convocatórias, no valor das mensagens de apoio e sobre tudo nas histórias como as de Lucy, que aqui compartilhamos.

Olga Oro (@ooro)

Antes do S19

“É que sou outra”, escrevi alguns dias antes do S19. “Uso tênis ao invés de saltos, caminho ao invés de andar em quatro rodas, já não me preocupa o penteado perfeito e como menos açúcar. Me tornei amiga da solidão e liberei meus demônios”. E é que este ano foi particularmente duro, meu entorno mudou, eu também mudei e estava começando a me ordenar, a decolar. “É que me sinto outra porque já não sou filha, nem neta, nem mãe; nem sequer dona de um cachorro”.

Este escrito ficou sepultado junto com um pedaço de mim e, talvez, com parte da dor que estampava estas letras. Era parte de meu primeiro projeto literário que trabalhava em uma oficina de escrita na colônia Roma, para onde iria depois de trabalhar umas horas em Álvaro Obregón 286, meu escritório remoto.

Depois de uma manhã agitada, logo cheguei ao edifício; a simulação me surpreendeu justo quando fazia um depósito no banco e comentei com a moça ao meu lado: estou me borrando. Tudo era igual, mas as ruas estavam mais ruidosas e caóticas do que o normal. Caminhei pela colônia com o café na mão, subi as escadas, me sentei em meu escritório, saquei meu computador e comecei a trabalhar.

Durante el S19

É que sim, sou outra. Descobri minha força, aquela que eu mesmo sepultava, sem aceita-la, sem olhar. A escondia sobre escombros de dor e insistia em trazer demônios do passado. Em tantas horas de profunda escuridão e silêncio, na penumbra da incerteza, entre pó e lágrimas, reconheci minha fortaleza. Física e mental. Meu corpo respondia e apenas desenhava uns arranhões. Minha mente estava determinada a lutar contra a voz interna que sugeria um cenário fatalista. Pensei: “Se estou ilesa debaixo de toneladas de cimento perfeitamente acomodadas ao meu lado, é porque lá fora há algo pra mim”. Perguntei uma ou outra vez a Deus, inclusive exigi uma resposta.

Aquele dia me sentia oprimido por tantas pendências que pareciam não acabar. Observei Isaac passar e perguntei: o que me trouxe? Uma co-worker me cumprimentou e comentou: “Amiga, me senti muito alta, talvez sejam meus saltos”. Respondi: “Além disso, eu estou de tênis”. Rimos. Vi passar alguns companheiros com pouca atenção por seguir submersa nos meus afazeres. Tomei o último gole de café e me servi um copo de água com pepino e limão. Fiz um posto no Facebook, pedindo uma recomendação.

Tremeu. Um movimento inexplicável seguido de uma reação estranha me levou instintivamente para onde Isaac nos indicava: a escada de serviço. Nunca cheguei até lá pelo movimento que balançava a terra, o edifício, as pessoas. Em questão de segundos, a luz se apagou, me senti coberta de terra, sem voz e com a respiração ofegante. Tive medo.

Aconteceu comigo aquilo que jamais passou pela minha cabeça, porque achamos que estamos imunes às tragédias, à mudança, ao movimento, ao poder do universo. Lutar tantas batalhas na minha vida sempre teve um duplo papel, de acreditar que estava isenta de mais dor ou, bem, de me sentir vulnerável a tudo. Mas eu estava lá, sepultada, incrédula, ansiosa. Não entendia nada ali embaixo. Tive todas as emoções e sensações possíveis em questão de segundos. Meus instintos e a adrenalina vieram ao meu auxílio. Está bem? Está ferido? Perguntava a Isaac. Estávamos física e mentalmente naquela nova realidade. Uma realidade onde ter os olhos abertos ou fechados era a mesma coisa. As sensações do corpo estavam em segundo plano. Eu sentia um ambiente frio por estar cercada de concreto, mas não era insuportável. Era pior me ver imersa nisso, com pouca mobilidade e gritos que se apagavam. Com silêncios que pareciam eternos.

Fizemos o que dava: rezar, chorar, duvidar, acreditar, gritar, aceitar. Nos fizemos companhia em silêncio. E juntos, juntos celebramos a voz milagrosa que nos perguntou: Quem está aí? Digam seus nomes.

Depois do S19

Foto nuevaÉ que sim sou outra, porque um edifício desmoronou sobre mim. Que mais dizer sobre o tênis ou o penteado… coisas menores. Sou outra por que me atrevi a me derrubar e a me reconstruir: me atrevi a viver.

Aquele desmoronamento me deixou lições de vida que ainda descubro e abraço. Não tenho pressão e fluo. Também choro e me aborreço. Também estou feliz de contar. Também me impressiona meu sorriso aquele dia em que um belo corpo de resgate me devolveu a vida. Aquele dia voltei a rir e abraçar minha irmã. Aquele dia me atrevi a deixar a dor debaixo da terra para viver assim… sorrindo.

Em que acredito? Se devemos rezar? Creio em Deus, na força das palavras, na determinação, nos ensinamentos de Buda, Jesus e outros tantos professores. Creio no amor e na compaixão. Creio na natureza e no universo; no poder do corpo e da mente. Creio em mim. Creio nas segundas oportunidades e em que, cedo ou tarde, as respostas chegam.

* Lucía Zamora se encontrava no edifício de Álvaro Obregón 286 no último 19 de setembro quando houve o terremoto. Não conseguiu sair e foi resgatada 36 horas depois.

Por Lucía Zamora (@SoyYoLucy)

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