Comunicação pós-apocalipse

Guido Gaona

Diretor-geral

Burson Cohn & Wolfe México

Ele tem mais de 20 anos de experiência nas áreas de comunicação corporativa, relações públicas e mídia digital. Dirigiu os escritórios da BCW na Argentina e Colômbia e teve responsabilidades regionais em Miami, Flórida. Foi diretor de comunicação corporativa da SAP México y América Central e gerente de relações externas da Masterfoods México.

Os psicólogos dizem que são necessários entre vinte e um e vinte e oito dias para adquirir um novo hábito. Isso significa que, se por vinte e oito dias nos levantarmos todas as manhãs para fazer exercícios, depois de um mês teremos gerado disciplina suficiente para continuar fazendo isso sem que seja um suplício acordar às 5h30 da manhã.

 

No México, estamos em confinamento há quase seis meses – sem ter sido obrigatório como em outros países da América Latina – em decorrência da emergência sanitária. Você já se perguntou quantos novos hábitos, bons ou ruins, adquiriu nestes quase 180 dias?

 

Diante desse cenário, e considerando que o erroneamente denominado “novo normal” durará pelo menos mais doze meses, as organizações devem considerar que, assim como seu negócio não voltará a ser o mesmo, sua forma de comunicação também deve se adequar a novos hábitos de consumo das pessoas.

 

O confinamento não só gerou mudanças significativas nos costumes, mas tivemos muito tempo para refletir sobre o que queremos fazer de nossas vidas se pudermos voltar a uma dinâmica como a que tivemos. Na Burson Cohn & Wolfe, identificamos sete tendências que mudaram o comportamento das pessoas e que, por sua vez, irão alterar a forma como as marcas e empresas operam… e se comunicam:

  1. A família e o indivíduo são prioridade máxima;
  2. A comunidade é essencial;
  3. A “hiper consciência” em torno da saúde;
  4. A necessidade de fontes confiáveis ​​de informação;
  5. O movimento em direção à interação remota;
  6. A mudança nos hábitos de consumo;
  7. Maior envolvimento de grupos de interesse.

 

Essas tendências nos permitem vislumbrar os cenários que poderemos enfrentar até 2021 e que, como especialistas em comunicação, devemos nos assegurar de que contemplamos para que nossas organizações também desenvolvam uma espécie de imunidade contra o embate da COVID-19, ou o que se poderia chamar de “resiliência corporativa” diante das sequelas da pandemia.

 

Vale a pena fazer uma pausa e começar a repensar nossa comunicação, não apenas pelos próximos 12 ou 24 meses, como costumava ser no passado, mas pelo que poderia ser um novo mundo pós-pandêmico. Aqui estão algumas reflexões:

 

Se pelo menos 50% de sua comunicação ainda não é digital, prepare-se para sofrer. Já comentei isso no passado: “social listening is the new black”, a escuta ativa nas redes sociais é o ponto de partida para fundamentar toda a nossa estratégia de comunicação. Será que alguns dos nossos públicos de relacionamento não utilizam ou não se informam por meio das mídias digitais? Zoom, Google Meets e Microsoft Teams deixaram claro para nós que a comunicação sem vídeo é praticamente inimaginável, que experiências de marca podem se tornar virtuais usando tecnologias e criatividade e que a comunicação baseada em dados (data analytics) a torna mais precisa e orientada para os negócios do que nunca. As áreas de comunicação que insistem em medir o sucesso com base no número de histórias publicadas logo se tornarão parte dos incontáveis ​​”casos de fracasso”.

 

Fontes confiáveis ​​de informação tornaram-se mais importantes do que nunca. A pandemia nos mostrou como é importante ter autoridades de saúde e opiniões científicas para administrar a crise e trazer tranquilidade a milhões de pessoas. Também mostrou como se tornaram perigosas as notícias falsas e comunicações que não são baseadas em evidências. Se somos autênticas fontes de referência, hoje a sociedade será mais sensível para nos ouvir.

 

Os verdadeiros líderes lutaram pela causa, os imitadores desapareceram. Quantos CEOs listados nos rankings de líderes empresariais desapareceram durante a pandemia? Quantos deles vimos realmente tomar a iniciativa e liderar com ações, não apenas palavras, seus funcionários, seus parceiros de negócios, todo o seu ecossistema em meio à crise? A pandemia pôs à prova lideranças genuínas e, a partir de agora, o que se espera dos dirigentes das organizações é que não sejam apenas empresários extraordinários, mas que tenham um lado humano que sirva de exemplo e inspire toda a sociedade.

 

A responsabilidade social passou de algo “bom de se ter” para “a razão de ser”. De repente, deixamos de fazer doações misericordiosas e marketing filantrópico para buscar contribuir por meio de ações de verdadeiro impacto social para salvar vidas humanas. Marcas e empresas mostraram, talvez pela primeira vez, seu verdadeiro sentido e missão na sociedade, às vezes complementando o trabalho de governos que se viram superados pela pandemia. Passaram de “vender” a “fazer” e se tornaram mais “humanas” aos olhos da sociedade. As pessoas testemunharam o que as empresas e marcas são realmente capazes de fazer pela humanidade.

 

Diante do golpe econômico gerado pela pandemia, muitas empresas não hesitaram em cortar suas áreas e esforços de comunicação. Fazer isso em meio a uma crise como a que vivemos – e que ainda vai piorar – equivale a um náufrago que flutua no meio do mar e perde a voz enquanto passa um bote salva-vidas. Deixar de se comunicar, e não só se fazerem visíveis mas também se tornarem relevantes para grupos de interesse neste cenário quase apocalíptico, pode ser a diferença entre a vida e a morte da organização.