Esporte, a malhor escola para a vida

Theresa Zabell Lucas

Presidente da Fundação Ecomar

Speaker da Thinking Heads

Palestrante da Thinking Heads, bicampeã olímpica de vela, especialista em resiliência e presidente da Fundação Ecomar.

Primeira e única mulher espanhola que conseguiu ganhar 2 OUROS olímpicos, além de 5 títulos mundiais, 3 europeus, número 1 no ranking mundial e um longo etecetera com apenas duas participações olímpicas, 1992 e 1996. Quatro anos antes, ela conquistou a vaga para ir a Seul 88, com chances de medalha, mas uma decisão da federação a deixou em casa; definitivamente uma grande experiência e um ótimo aprendizado. A palavra pioneira reaparece constantemente em sua vida; nos esportes, abriu o caminho para as atletas do sexo feminino, foi deputada do Parlamento Europeu na legislatura 1999-2004, quando o esporte se tornou parte das instituições Comunitárias, e trabalhou para estabelecer as bases dos futuros programas desportivos na UE. Foi a primeira mulher vice-presidente do Comitê Olímpico Espanhol e, há mais de 20 anos, lançou uma fundação, a ECOMAR, para buscar soluções e conscientizar sobre a situação da poluição em nossos mares.


Você já se perguntou onde aprendeu algumas das lições que mais lhe ajudaram em suas carreiras pessoal e profissional? As lições e o aprendizado são contínuos ao longo da vida, embora, sem dúvida, alguns sejam muito mais profundos que outros; um verdadeiro tesouro.

Quando as pessoas me perguntam qual é a melhor coisa que tirei da minha carreira esportiva, a melhor memória, a melhor experiência, o momento mais especial, se foi vencer os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 ou repetir a façanha quatro anos depois em Atlanta, se eu valorizo mais ​​ser cinco vezes campeão mundial… a verdade é que, às vezes, é difícil dizer que nenhuma das opções anteriores. A melhor bagagem é o aprendizado que você leva na forma de experiências incomparáveis, ​​às quais a grande maioria dos seres humanos nunca terá acesso.

Ainda com pouca idade, as informações que receberemos são muito importantes, pois é quando somos mais receptivos, mas é ainda mais importante as atividades e experiências nas quais podemos participar. Um fato verificado é que o ser humano tende a lembrar entre 10 e 20% do que vê e do que ouve, nada comparável aos 90% que gravamos depois de participar ativamente de algo que gostamos e nos divertimos. O esporte é a ferramenta ideal para conseguirmos alcançar nossos objetivos de aprendizado, muitos deles inatingíveis em outras áreas da vida.

Quão difícil é aprender a estabelecer uma meta na vida e projetar o caminho que o leva a ela. Como atletas, fazemos isso desde jovens, talvez tenhamos decidido nosso sonho com muita pouca idade e, logo em seguida, nos vemos envolvidos na responsabilidade que a realização desse objetivo implica e que nos marca para sempre.

Evidentemente, conseguir tocar o céu não só não é fácil, como é reservado para poucos. Todos nós que conseguimos reconhecemos que as melhores lições foram aprendidas nas nossas derrotas, nos obstáculos que passamos, nos revezes que sofremos, nos tropeços… a única coisa importante nesses momento é internalizar a lição e se recuperar para levantar ainda mais forte do que antes.

Ao se preparar para um grande evento esportivo, o planejamento é essencial e é necessário ter uma boa estratégia. Digamos que em suas respectivas tarefas profissionais, você deve ter um desempenho de 110% em uma data específica dentro de 4 anos. Como você planejaria a partir de hoje? Se somarmos a isso que não apenas precisamos ter o melhor desempenho nessa data específica, mas também melhor do que o das outras pessoas que decidiram fazer o mesmo que nós, vindos de todo o mundo, pode-se imaginar que a pressão é máxima. O lado positivo é que, quando alguém se aposenta do esporte, a estratégia é algo que se leva nas veias.

Muitas vezes falamos de quatro anos de preparação olímpica, embora eu não conheça ninguém que tenha conseguido triunfar nesse período de tempo, costuma-se trazer uma bagagem anterior bastante pesada. Durante esse período, se aprende muitas coisas e uma das quais eu mais valorizo ​​é ser ‘resiliente’. Isso nos ajuda a ter capacidade de recuperação, de adaptação, sermos resistentes, flexíveis… enfim, de uma maneira sobrenatural, nos ajuda a enfrentar realidades não planejadas. Em um esporte como a vela, isso acontece com frequência; toda vez que o vento muda, você tem que reajustar as velas, para exemplificar de alguma maneira. Nada que mais tarde não aconteça na vida da empresa, por exemplo.

A humildade é outra ótima lição que convém praticar, especialmente quando você ganha. Afinal, sempre tem outra pessoa para quem essa derrota está sendo dolorida. Já passamos por isso, vivemos em nossa própria carne. Por isso, não posso concordar mais com a famosa citação de que se deve ser “forte na derrota, humilde na vitória”.

Há muito mais lições que se aprende por ter feito três preparações olímpicas. Duas delas foram para ir aos Jogos e subir ao topo do pódio, mas sem esquecer os Jogos de Seul 88, ao qual não fui devido a uma série de circunstâncias polêmicas, que me serviram como grande lição para me tornar a atleta que eu fui e a pessoa que eu sou.