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Humildade comunica verdade

Enrique Sueiro

Diretor do Programa de Direção de Comunicação em Comunicação Corporativa e Management

IE Business School

Doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, diretor do Programa de Direção de Comunicação Corporativa e Management do IE Business School e vogal da la Asociación de Directivos de Comunicación (Dircom, Espanha). Foi diretor de Comunicação do Centro de Pesquisa Médica Aplicada (CIMA) e do Centro de Pesquisa Biomédica em Rede (CIBER) de Doenças Respiratórias. Também foi diretor de Comunicação Interna e de Comunicação Científica da Universidade de Navarra. Prêmio Speaker 2013 do Manager Fórum, publicou artigos no El País e outros meios, alguns traduzidos para o inglês, alemão e português. Seus últimos livros são Comunicar o no ser (2014) e Saber comunicar saber (2016).


“O ouvido é a segunda porta da verdade e a primeira da mentira”, escreveu Baltasar Gracián em A arte da prudência, livro de sabedoria prática, também para profissionais de comunicação. O autor recordava no século XVII algo vigente no XXI: que vivemos mais do que nos contam do que do que vemos.

A quantidade, rapidez, contradição e heterogeneidade de informação que recebemos hoje exige habilidades familiarizadas com o verbo discernir. Assim, podemos distinguir conceitos tão próximos como diferentes: realidade e percepção, ser e parecer, dados e conhecimento, bússola e cronômetro, etc.

Neste contexto, uma virtude pouco vinculada a comunicação é a humildade. Por ser extremamente humana, suspeito que integrá-la em nosso ecossistema profissional só pode trazer vantagens. Ainda mais se admitirmos a premissa de que somente a verdade comunica. Jim Collins, autor de Empresas que sobressaem, ilustra como a humildade era uma das características do perfil pessoal de uma série de diretores exitosos no médio-longo prazo.

Verdades parciais e sem proporção parecem mentiras

Do latim húmus (terra fértil), humildade vem a ser como o hábito de ter os pés na terra e, portanto, em contato direto com a realidade. Esta conexão mostra um ensinamento secular também latino: quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur, que pode ser traduzido como quem recebe o faz de acordo com o receptor. Assim como um liquido adota a forma do recipiente (seringa, lata, garrafa, cisterna) e recebe segundos sua capacidade (um mililitro, 33 centilitros, um litro, três litros), as pessoas sabem ou pensam de acordo com nossa experiência, formação, sensibilidade e preferência. Por tanto, uma mesma realidade afeta de forma desigual quem é diferente… e todos somos diferentes.

Isso explica que os mesmos dados admitam leituras diversas, que pessoas com cargos equivalentes priorizem de maneira distinta e que ignorâncias idênticas causem resultados opostos. Percebendo isso implica, sem ir mais longe, que este mesmo texto gera afetos e efeitos variáveis, segundo leitores; inclusive em um mesmo leitor, segundo o momento de sua vida. O conhecimento disponível para quase todos, em livros e redes, não alimenta a quem não se aproxima dele e, entre os que o acessam, são nutridos na medida de sua própria atitude.

Cabe mencionar algumas consequências de praticar a humildade no âmbito da comunicação: escutar para compreender, formar-se para crescer, pensar para decidir, observar para convergir, falar para confirmar, calar para descontaminar, retificar para humanizar e qualificar-se para abrilhantar a comunicação. A todas essas ações somaria o verbo proporcionar – no sentido de dar proporção ou dimensão adequadas – e as envolveria com coerência ao agir. Às vezes, tenho a impressão de viver em um mundo estupendo… e muito improvável, se atenuarmos algumas verdades que, por serem parciais e transmitidas com desproporção, alimentam mentiras letais. Ao escutar, atuar e falar, sejamos conscientes de que verdades parciais e sem proporção parecem mentiras.

Prioriza a realidade operacional (feitos), não a retórica (ditos)

Sem humildade se complica a capacidade de admitir certas verdades, sobretudo quando significa reconhecer erros. Por isso, a primeira vez que visitei Harvard me surpreendeu e encantou a anedota da “estátua das três mentiras”. Esta universidade anuncia assim em seus guias oficiais a estrutura de seu fundador que preside o campus. Faz alusão à lenda escrita na base que sustenta a figura, onde se lê: “John Harvard, Founder, 1638”. Nem a figura corresponde a Jonh Harvard, que representa um aluno que serviu de modelo; nem a data coincide com a origem, 1636. Assim, que três mentiras em quatro palavras: média paradoxal para uma instituição cujo lema é justamente Veritas (verdade).

Tal erro, se fosse ocultado ou negado, seria uma opção demolidora para a reputação corporativa. Publicamente exposto, longe de projetar a debilidade que envolve toda opção de assumir erros, se torna um emblema simpático de autenticidade transparente. Não em vão, humor e humildade compartilham a mesma origem etimológica.

A verdade corporativa se refere à realidade operacional (feitos), não à retórica (ditos). A denominada cultura de empresa – o que de verdade se cultiva e, antes ou mais cedo, germina – geralmente discorda da declaração institucional da própria organização, com frequência carente de humildade para reconciliar-se com sua própria realidade. Mutantis mutandis, a verdade pessoal aparece quando sou o que digo, quando a pessoa encarna sua própria mensagem. A partir dessa raiz vem a liderança profundamente humana, o que comunica verdade.

Servimos para comunicar se comunicamos, com humildade, para servir… de verdade.