A ditadura do like

Carlos Álvarez Teijeiro

Director de Máster

Escuela de Posgrados de Comunicación de la Universidad Austral

Carlos Álvarez Teijeiro é doutor em comunicação pública pela Universidade de Navarra. Atualmente, ocupa o cargo de diretor do Mestrado em comunicação para a gestão da mudança na Escola de Pós-graduação de Comunicação da Universidade Austral, Buenos Aires. Publicou quatro livros e é coautor de outros cinco. Seu último livro, com Alejandra Brandolini, tem o título de ¿Por qué a los gobiernos les interesa la comunicación interna? (2017).

Entre Facebook e Instagram, 6 bilhões de likes são concedidas por dia. A ditadura do like coloca em questão a (in)felicidade digital e o vício em todos os tipos de hiperconexões superabundantes, plataformas e telas.

Se durante anos tivemos que viver com o desencanto tímido da muito new age era de Aquário e suas promessas emancipatórias não cumpridas, hoje habitamos com entusiasmo a era de Narciso. Narciso, já se sabe, é um jovem personagem da mitologia grega apaixonado por sua própria beleza, tanto que acaba se afogando ao contemplar sua imagem na água de uma fonte. O mito conclui dizendo que na lagoa que foi sua tumba deveria nascer a flor que leva seu nome.

A era de Narciso. Vivemos hoje em uma sociedade compulsivamente intimista, uma sociedade de uma superexposição gritante de nosso mundo interior, do quanto sentimos e pensamos, sempre na procura ansiosa do like aprovador dos outros e sem esse ato simbólico nos encontramos completamente desamparados, carentes. Uma sociedade em que a ostensiva e desenfreada exposição de uns corresponde ao voyeurismo de outros.

É a ditadura do like, a presença constante do gostar alheio como configurador da própria existência. O like simula o foco, sobrecarregados como estamos de nós mesmos, ao nos dar uma pretensa identidade: ser objeto do gosto dos outros, ser destinatário de sua complacência.

A era do like e de Narciso trazem tempos propícios ​​à efusividade, à exaltação do eu, a uma alegria diretamente proporcional ao exibicionismo nas redes: o eu dança diante de seus espectadores, tornando-se assim algo espetacularizado, teatral, dramatúrgico. E não apenas nas redes sociais. A era de Narciso é também, e em consequência de, a era do selfie, do autorretrato. Nós admiramos nós mesmos como se fôssemos a construção mais acabada da natureza, seu prodígio mais verdadeiro.

Mas essa encenação de tudo pode se tornar obscena: uma obscenificação, uma exposição desmedida e diante de um olhar também desmedido. Dramaturgia não é sinônimo de alegria. No fundo, as exposições públicas na era de Narciso terminam sendo tristes, porque nossas demandas exageradas por reconhecimento estão quase sempre atrás do número daqueles que estão dispostos a nos reconhecer.

A confiança que depositamos no processo de identidade é frustrada e nem sempre estamos em condições de lidar com tamanha decepção. É a net depression, a depressão da rede que já foi diagnosticada por alguns psicólogos e psiquiatras, especialmente nos Estados Unidos. Depois de voluntariamente nos super expor, chegamos ao estresse pós-traumático: não somos amados planetariamente como imaginávamos que aconteceria e isso nos deixa desamparados e mergulhados em uma profunda solidão, em uma angústia arraigada, quando comprovamos com melancolia que nem todos nós podemos ser influencers nem famosos youtubers. Embora seja intergeracional, essa solidão e angústia são especialmente graves entre os mais jovens, incluindo as crianças, porque, talvez, ainda precisem de outros recursos mais sofisticados de socialização.

A ditadura do like configura sua própria temporalidade, acelerada: é um tempo trepidante, tumultuado, no qual a infinidade de posts e imagens corre diante de nossos olhos a uma velocidade de vertigem, vistas e não vistas, presenças fugazes, efêmeras, que, em questão de instantes, tornam-se ausências dolorosas. É o borrão do eu e seus fantasmas, suas visões espectrais.

Esse apagamento das pegadas reais do outro, sua dissipação em favor das pegadas virtuais, dos vestígios na rede, nos leva a não sermos reconhecidos por quem somos, mas por como navegamos, essa é nosso registro mais verdadeiro, nossa marca. Nossos rostos se convertem em rastros, em indícios de que nos aventuramos na rede, logo existimos.

O cogito cartesiano, princípio moderno de todo conhecimento, é agora nossa capacidade de gostar e ser gostado, a medida exata em que nossa exposição causa o consentimento de outras pessoas, o culminar de todos os nossos esforços e inquietudes e sem o qual nos sentimos completamente perdidos, desolados. Ser na rede, mais do que estar, possui os mesmos efeitos que a alta música eletrônica de hoje: a superabundância das redes exerce sobre seus usuários uma influência hipnótica, que tem como primeira e poderosa consequência a robotização, a automação do eu.

De fato, através desse processo de hipnose coletiva, o comportamento do eu se torna automático e compulsivo. Trata-se de uma exposição que não pode deixar de ser exibida, incessante, sem prazo possível para terminar e que é regida pela seguinte interdição: não deixará de se mostrar, não importa em nada o preço que se deve pagar para isso.

A hiperexposição do eu acontece em virtude de nossa condição fantasmagórica, da qual se segue nossa onipresença, nossa capacidade de estar em todas as partes e ao mesmo tempo ou, mais do que nossa capacidade, nosso desejo de sermos onipresentes. É a diáspora de si mesmo, sua dispersão absoluta, a mesma que, muito precisamente, nos impede de ter uma identidade única: somos conclamados a ter identidades mutantes, tantas quanto são as relações virtuais das quais fazemos parte.

Essa mutação de identidade não acontece de uma vez e para sempre. Trata-se mais de uma exigência com pretensões de permanecer constantemente acelerada, e uma exigência irresistível, irrepreensível. Dado que os likes a que aspiramos procedem de gostos muito diferentes, estamos obrigados a uma metamorfose permanente para nos adaptar a cada um de esses gostos, em um movimento que não tem nenhuma pausa. Se a paz é a tranquilidade na ordem, como diziam os antigos, definitivamente não há paz nas redes, já que não há nem tranquilidade nem ordem, só uma gigantesca e magnífica confusão: todos com todos em tudo e ao mesmo tempo.

As hiperconexões dão lugar a uma era digital caracterizada pela expectativa, um tempo de expectativas não moderadas, da esperança irreal em que tudo é possível, da manutenção de uma identidade única do eu simultaneamente com a multiplicidade de relações nas quais esse eu está em jogo. É uma estética da inocência, como se toda transação de identidade fosse completamente inofensiva e absolutamente reversível. Essa suposta reversibilidade do tempo vital investido em cada vínculo, em cada contato, é o mais próximo do cancelamento da mortalidade, de sua extradição, do deserto do tempo (finito) da vida real a favor do tempo (infinito) das redes.

A extrema sofisticação das tecnologias de contato nos leva a perder de vista seu caráter de mediação, levando-nos à naturalização de um link que é por si só artificial. Esse naturalismo de vinculação opera nos convencendo de que os relacionamentos virtuais são, na realidade, relacionamentos completamente naturais, isentos de artimanhas em um processo irreversível e paradoxal: agora é o mundo real que nos parece artificial e, tecnologicamente mediado, o que nos parece estranho, alheio, distante, longínquo, antinatural.

A era de Narciso tem seu próprio regime disciplinar, sua regulamentação sobre como competir no teatro de operações alheias: tudo deve ser brilhante, festivo, libertador. Simplesmente não há lugar para a tristeza, para o desânimo, para a decadência, banidos de uma vez por todas do território do cool, o novo imperativo categórico da época.

Assim, mesmo com seu aparente caráter igualitário, a ditadura do like é no fundo uma meritocracia de difícil acesso: ou é cool, ou parece ser, ou estamos fatalmente condenados a habitar em suas periferias. E ser cool é, com certeza, ser jovem e bonito. No entanto, embora os jovens e os bonitos pareçam ter uma vantagem na era de Narciso, não estão completamente dispensados ​​da ditadura do like: eles também precisam da aprovação de seus contemporâneos, também nesse aspecto são extremamente carentes, sempre na dúvida se sua juventude e beleza serão suficientes para mantê-los no nível top do ecossistema virtual.

Não se trata de adotar aqui posições extremistas ou maniqueístas: a era da hiperconectividade para todas as telas e plataformas ou a era da desconexão, do apagão digital. Talvez nos baste, com um pouco do não muito frequente senso comum de encontrar um equilíbrio justo, o tempo giusto, um uso light y dietético das redes, mensurado, leve, comedido, suave, que não nos separe por completo dos nossos semelhantes nem nos conduza àquela proximidade viciante-compulsiva na qual as identidades se dissolvem virtualmente no nada.

É necessária uma nova ecologia das redes, um olhar humanista para o ecossistema digital no qual as tecnologias continuam a ter um caráter instrumental e subsidiário em relação à centralidade da pessoa, a sua primazia como subjetividade. Poderia muito bem ser o profético e audaz humanismo tecnológico de Hans Jonas, já no século passado, cuja vigência é hoje mais necessária do que nunca.

Felizmente, a vida pode ser um pouco mais simples. Não se trata tanto de estar no topo e ser admirado, mas de estar no centro e ser considerado. A verdadeira alegria, a que nem o like nem Narciso podem nos proporcionar, depende mais de nossa transfiguração, de nossa transformação, do que de nossa encenação.

Uma transformação segundo a qual os outros – e nós – sejamos levados em consideração pelo que somos e não pelo que de forma tão imprudente, ingênua e desprevenida mostramos: não podemos buscar a felicidade onde ela não está, não se pode buscar a comunhão onde não há nada além de contato. Não se trata de ir além, mas de ser mais profundo.