Entrevista a Juan Carlos Gozzer, Sócio e Diretor Geral da Região Sul – LLYC

Juan Carlos Gozzer

Diretor Geral da Região Sul

LLYC

O que é o projeto Future Leaders?

O projeto consiste na utilização de técnicas de processamento linguístico, inteligência artificial e machine learning para analisar como falam, o que pensam e os valores da nova geração de líderes que falam espanhol e português em comparação com os líderes atuais. Com o Future Leaders, queríamos basicamente integrar a tecnologia em nossa tarefa de entender nosso público e as referências de certas comunidades de conversação por meio do uso de open data.

 

O que motivou o LLYC a conduzir este estudo?

Dois fatores-chave se uniram: o primeiro é que estamos, sem dúvida, testemunhando o surgimento de uma nova liderança. Não apenas acelerado pela COVID-19, mas por um contexto de diferentes demandas e expectativas sociais. O segundo fator tem relação com a crescente integração da tecnologia na comunicação e gestão da reputação. É um momento de transformação para o nosso setor, no qual as percepções intuitivas dão lugar à análise por Big Data com resultados cada vez mais assertivos.

 

Como o machine learning ou a análise de processamento linguístico são aplicados a um estudo como esse?

As técnicas de análise linguística ou análise de traços de personalidade não são novas e tanto a psicologia, quanto a linguística e as ciências sociais vêm trabalhando nisso há anos. O interessante é treinar uma máquina que nos ajude a analisar, a partir de open data, a forma como os líderes atuais e os futuros se expressam e como isso nos permite identificar traços de sua liderança.

 

O que os 120 jovens líderes analisados ​​têm em comum?

Ao fazer uma seleção em 12 países e em espanhol e português, como foi o caso neste estudo, era de se esperar uma dispersão dos resultados. No entanto, ficamos impressionados não apenas pela forma como os perfis se enquadram nos atributos de um “líder transformacional”, mas também pelos valores comuns a todos. Estamos falando de pessoas com grande resiliência emocional, com ótima gestão no mundo das ideias e da inovação; além de serem muito pragmáticos e preocupados com o seu ambiente.

Pessoas em diferentes países e atuando em ambientes diversos estão compartilhando valores comuns e assim mostram como devemos ampliar nosso olhar e não o limitar a fronteiras ou idiomas.

 

Em comparação com os líderes atuais, o que é mais impressionante na análise da personalidade dos futuros líderes?

Das cinco características analisadas (abertura a ideias, responsabilidade, extroversão, altruísmo e neuroticismo), destaco duas em particular: a primeira, altruísmo. Há uma preocupação maior desses novos líderes com seu ambiente, com o “outro” e, em última instância, em gerar um impacto positivo na sociedade, trabalhando em equipe, apelando para o coletivo. E é precisamente isso que chama a atenção pela forma como se relaciona com a necessidade de um olhar mais aprofundado sobre o propósito das empresas e instituições. Estabelece uma tendência para nós em que a reputação deve definitivamente girar em torno do propósito, se quiser ter um impacto real.

O segundo elemento é o da responsabilidade. Muitas vezes há uma percepção equivocada de que essa nova geração de líderes é menos responsável, mas a análise dos Future Leaders nos mostra o contrário. São pessoas com alto grau de comprometimento com os objetivos definidos. O que provavelmente não ocorrerá, é que sejam pessoas que precisem de supervisão ou de um cronograma para cumprir suas tarefas. Nesse sentido, por exemplo, acredito que a COVID-19 nos deixa lições claras sobre teletrabalho e gestão vinculadas a objetivos, ao invés de configurações ou horários determinados.

 

Essas diferenças de personalidade também são perceptíveis no discurso?

Sim. Na verdade, ficamos muito impressionados com a maneira como o discurso dos líderes do futuro se concentra mais em “fazer” do que em “dizer”. Na comunicação, falamos muito sobre storytelling e storydoing (contar e fazer histórias) e o estudo nos mostra que a melhor forma de nos conectarmos com esta nova geração é através da ação, e não tanto pelo dizer. E esta ação a que se referem os líderes do futuro visa o trabalho em equipe, para gerar um impacto positivo no ambiente; para gerar um legado. Coincide, sem dúvida, com o desafio de posicionamento enfrentado por grandes empresas em todo o mundo hoje.

 

Como esse tipo de estudo impacta a comunicação das empresas?

Quando aplicamos técnicas de processamento linguístico, percebemos que o idioma pode ser uma barreira importante para conectar as empresas aos ambientes onde operam. É como falar línguas diferentes. Se em nossa comunicação (digamos as notas de imprensa, posts em mídias sociais ou discursos de nosso CEO) não integramos as palavras e os termos que nos permitem nos conectar com nosso público, sempre haverá uma barreira, mesmo que falemos sobre a mesma coisa. Hoje, a tecnologia nos permite entender melhor para nos comunicarmos melhor. Basta imaginar esse uso da tecnologia para que as empresas possam conversar melhor com seus colaboradores, sociedade, investidores etc. Sem dúvida, os resultados serão muito melhores.