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Paulo Nassar, diretor-presidente da Aberje e professor da ECA-USP

20 Junho 2018 |by Fundacom | Comentários fechados em Paulo Nassar, diretor-presidente da Aberje e professor da ECA-USP | Entrevistas | , ,

Qual é o papel do conselho de administração diante do que o senhor denomina de intangível?

É importante que o conselho mantenha sua competência tradicional, baseada na experiência e na sabedoria de seus membros. Sem abrir mão dessas qualidades, o conselho deve também ampliar o seu olhar para o que chamo de intangível: questões sociais e culturais. Conselhos tradicionais, voltados para aspectos técnicos, resistem à ideia ainda que estejamos erodidos pelos acontecimentos. Vamos pegar o tema compliance e corrupção. Nos últimos cinco anos, grandes organizações que atuam no Brasil, com faturamento na ordem de bilhões e que empregam milhares de pessoas, tiveram suas marcas destruídas por uma atitude comportamental dentro das relações público-privadas. No ambiente internacional, também tivemos perdas bilionárias por questões comportamentais da alta direção. São exemplos que mostram que esse olhar abrangente no que tange a cultura organizacional, das práticas comportamentais, é necessário.

O que é preciso mudar para que os conselhos se adaptem ao atual cenário social?

O conselho é um espaço singular, quase mítico. A percepção social é de que é formado por pessoas de grande sabedoria. O mais importante nesse ambiente, associado a um elevado padrão de qualificação, é a mudança de postura. É preciso perceber que empresa e sociedade fazem parte do mesmo território; e que as organizações precisam estar alinhadas às expectativas sociais. Essa transformação é fundamental. Não se espera que as empresas atuem somente no âmbito dos bens e serviços, mas que transcendam para uma nova dimensão social.

O que muda na formação e nas competências dos conselheiros? Estamos indo para uma visão aristotélica dos conselhos. Aristóteles diz que a política organiza a polis. Metaforicamente, a empresa é a polis, onde teremos conselheiros e alta direção determinando as políticas a serem desenvolvidas. Dentro dessa visão política contemporânea, incorporando os intangíveis, o conselho não pode ser apenas técnico. O conselho é um órgão político – no sentido mais nobre da palavra – e por isso não pode ser protocolar. Se uma organização fica restrita a processos ela se torna analfabeta em termos comunicacionais e relacionais. Estamos em um momento de transição: de um conselho ainda fechado, mas que está se abrindo por conta do tsunami social que bate à porta. A abertura é uma questão de sobrevivência. Não dá para separar o corpo e alma, tangível e intangível. É um pacote só.

O que pode acontecer com as companhias que ficarem fechadas em seus próprios negócios e não se adaptarem a essas novas demandas sociais?

O futuro delas é de destruição de marcas e de valor, tanto econômico quanto social. Hoje, o papel das empresas não se restringe a apenas desenhar uma ação industrial e comercial.

Fonte: http://emkt.ibgc.org.br/emkt/tracer/?1,4843830,dd1cb109,7c80

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